07/07/2011

O que significa ser humano?
Por Rubem Menezes

Esta questão que já intrigava os antigos, intriga pensadores até hoje. Estes, por sua vez, no seu esforço de buscar, senão uma resposta, ao menos uma compreensão, nos dão algumas pistas muito interessantes acendendo uma luz sobre o assunto.
Sófocles, filósofo grego do VI a.C. descreveu o ser humano como um ser possuidor de capacidade e habilidades especiais: “O ser humano é um ser dotado de inteligência, capaz de gestos e ações conscientes, pensadas e queridas. Um ser inteligente e criativo e capaz de grandes superações; tanto habilidoso para o bem, quanto para o mal”.
Para Immanuel Kant, filósofo alemão do século XVIII d.C., o ser humano é um tanto mais rico de características e multifacetado ou, num termo bem mais contemporâneo, é um ser complexo. Para ele o humano é um ser cultural, que tem o germe da discórdia, de onde tira a concórdia (do caos à ordem). É um ser de constantes conflitos e constantes superações. Assim, podemos estar tristes hoje, mas alegres amanhã; podemos perder hoje e ganhar amanhã. Por outro lado, podemos ser capazes de atos heroicos num dia e de bárbarie no outro.
O ser humano é um ser que tem vontade, pensa, tem querer, sofre, luta, realiza e se realiza. Edgar Morin, pensador francês do nosso século (XXI), em seu pensamento complexo desceve o ser humano como sendo um ser bipolarizado, ou seja, é ao mesmo tempo sábio e louco, trabalhador e lúdico, empírico e imaginário, econômico e consumista, prosaico e poético.
Com o termo complexo estamos falando daquilo ou daquele que é “tecido ou entrelaçado junto” (do latim “com” (junto, abraçado) + “plexus” (tecido, entrelaçado).
Em suma, ser humano significa um ser complexo que se faz pelas relações que estabelece com a natureza, com o outro, com o simbólico e com o transcendente.

22/06/2011

  Minha terra
   Por Rubem Menezes


   Queres saber se sou do Amazonas?
   Vou responder-te com a minha pena:
   ─ Sou da terra de mui quentes zonas,
   Terra do povo de pele morena.

   Nasci na terra de Ajuricaba,
   Índio guerreiro e valoroso.
   Líder que o povo amava,
   Por ser bravo e corajoso.

   Sou da terra do guaraná,
   Do abio, do cupuaçu;
   Terra do tucumã, do patauá,
   Do buriti e do caju...

   Nasci na terra do puraqué,
   Do peixe-boi, do tambaqui;
   Terra do boto, do tucunaré,
   Do pirarucu e do jaraqui...

   Sou da terra do aluá,
   Do chibé e da tapioca,
   Do beiju e do vatapá,
   E da farinha de mandioca.

   Sou caboclo. Sou do norte.
   Terra de rios e de florestas,
   Mas, também de povo forte,
   De artistas e poetas.

   Sou da terra de pintores:
   Moacir de Andrade, Anísio Mello...
   E também grandes escritores:
   Álvaro Maia, Thiago de Mello...

   Sim, sou do norte tropical,
   Terra de quentes zonas,
   Sou da terra do seringal.
   Eu sou filho do Amazonas!

02/04/2011

Uma reflexão sobre a necessidade da apologia da fé
Por Rubem Menezes


“­— O cristianismo é uma farsa! Sua fonte de autoridade, a Bíblia, é balela, é uma grande contradição!” Essas foram palavras usadas por uma pessoa revoltada com Deus e o mundo. Ela tentava estravasar seu mau-humor e desconten­tamento. Vale dizer que ela não foi nem é a única a pensar assim. Declarações como essas, não só a respeito do cristianismo, mas das religiões em geral, são expressadas por pessoas de todas as cama­das sociais e dos mais diferentes ní­veis intelectuais.

Situações assim devem desafiar os crentes (pessoas que professam uma fé) e não desanimá-los, como se esperassem que todas as pessoas concordassem com sua crença ou aceitassem seu objeto de fé.

No caso da fé cristã, o desafio está em o cristão apresentar uma refutação clara, honesta e verdadeira a cerca do que ele crê. Precisa responder aos que debocham da sua fé e do seu livro sagrado, a Bíblia, com conhecimento, inteligência, convicção, ou­sadia e sabedoria. O que esta­mos dizendo é que o crente precisa exer­ci­tar a apologética. Etimologicamente, apologia quer dizer um discurso para justi­ficar, defender ou louvar. No caso da fé cristã, a apologia consiste em um discurso de justificativa e/ou defesa dessa fé cristã.

O apóstolo Pedro, um dos baluartes do evangelho, fala da necessidade da apologia da fé, quando diz: "antes, santificai a Cristo, co­mo Senhor, em vossos corações, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós" (1 Carta de Pedro 3.15,16). Essa resposta a que o autor de refere é a apologia.

Não é sempre que as questões religiosas se expressam pela fé. Nalguns momentos são necessários argumentos que vão para além da fé, e que sejam apresentados com bases sólidas, conscientes e consistentes. Há momentos em que, até para quem pretende fomentar a sua crença, é imprescindível buscar conhecer racionalmente os fundamentos da sua fé, além de aceitá-la subjetivamente. É mister uma argumentação séria, sólida, fundamentada racionalmente e or­ga­­ni­zada logica­mente. Não há motivo para ter medo da racionalidade, nem tampouco se deve associá-la à descrença. O apóstolo Pedro parecia saber muito bem da necessidade e da importância de conhecer (ato racional) a sua própria fé — parece mesmo que sentiu isso na pele.

Não pense que estamos negando ou minimizando a fé. Esta é necessária para se aceitar a crença e experienciá-la. Mas, como a religião (qualquer que seja ela) é um fenômeno que se dá no tempo e no espaço e na história do homem, ela pode e deve ser compreendida dentro de uma certa racionalidade. Ou seja, ela pode e deve ser pesquisada, estudada, observada etc. Para os que crêem isso dará mais solidez à sua fé e arguemento para sua apologia. Para os que não crêem dará apenas conehecimento ou, simplesmente, informação.

O apóstolo Paulo, outro grande paladino do evangelho, foi um brilhante apologista. Dois dos momentos monumentais da sua atuação foram registrados por Lucas, no livro dos Atos dos Apóstolos: o prmeiro, quando Paulo faz um discurso apologético peran­te os filósofos gregos estóicos e epicureus (Livros dos Atos 17.16ss.); o segundo, quando fez apologia da sua fé, com muita veemência, perante Agripa II, rei da Judéia (Livro dos Atos 26.1ss.).

Você é um crente? (não importa a crença). Então, você é responsável por sua crença. Portanto, estude-a! Conhecça-a! Faça perguntas, investigue, busque respostas! Continue prestando culto à divindade. Isso é expressão da fé. Mas, não esqueça de que o culto a Deus é um ato racional (Carta aos Romanos 12.1). Ou seja, cultua-se com a razão. O dicio­narista Aurélio Buarque de Holanda, diz que “razão é a faculdade que tem o ser humano de avaliar, julgar, ponderar ideias universais e de estabelecer relações lógicas, de conhe­cer, compreender e raciocinar”.

Em síntese, continue crente. Mas, seja um crente racional, preparado para compreender e comunicar a sua crença com inteligência, conhecimento e sabedoria. Creia para experienciar o sagrado. Mas, estude para conhecer sua religião e para defender com garbo a sua crença.